terça-feira, 9 de junho de 2009

Sinto muito...




Sinto muito...

Há semanas mantenho-me encarcerada em meu quarto por espontânea vontade. Dediquei meus últimos dias à ler poesia clássico-romântica, em busca de versos líricos que possam me ajudar à expressar este amor que explode em meu peito.
Encontrei renomados escritores, belíssimos textos. Dentre eles o que mais me despertou atenção foi um de Fernando Pessoa: ‘Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?’
Era este! Perfeito e singelo. O li e reli inúmeras vezes, com a intenção de declamá-lo para você. Em vão, em uma de nossas conversas, disse-me que não gostas de poesia.
Talvez bombons, ou uma mensagem telefonada!?
Não, tu achas ultrapassado.
Poderia no entanto eu mesma ligar-te, conversaríamos um pouco sobre nossos dias e então eu me declararia.
Muito improvável que tu atendas, faz questão de deixar claro que és um garoto muito ocupado.
Um e-mail, quem sabe. Com uma foto nossa, e mensagens apaixonantes.
Oh não, você nem sequer abre sua caixa de entrada.
E do mais, eu queria uma forma romântica para expressar meu amor. Assim como nos filmes ou contos de fadas.
Mas como em meu reino não há mensageiros, eu mesma me encarregarei de dizer-lhes o quão te amo.
Fechei o livro que estava folheando, levantei-me e me troquei. Pus o meu vestido mais elegante, perfumei-me com o aroma mais irresistível e calcei o melhor dos meus sapatos. Fui ao teu encontro.
Apesar dos imprevistos no caminho, cheguei à tua casa. Meus dedos tremendo tocam a campainha e logo as luzes se acendem. É agora.
Em poucos minutos, a porta abriu-se e lá estava ele, lindo como sempre.
Não me contive e em um impulso lhe abracei, minha alegria ultrapassava os limites do imaginário, tornando-me a mulher mais feliz da rua, do bairro, do planeta.
Disse-lhe que nada neste pequeno mundo iria nos separar, que não me deixaria ficar sem ti. E viveríamos felizes para sempre, assim como nos contos de fada.
Oh, que ingenuidade. Você como bom sedutor tinha a garota que almejasse em suas mãos. E foi justamente uma destas garotas que estava saindo de sua casa naquele dia.
Provavelmente estava desnuda, pois seu cabelo estava emaranhado e sua roupa não estava alinhada corretamente.
Ao passar por ti, deu-lhe um beijo, e saiu.
Oh, o beijo que eu tanto almejará. Na boca que eu mais desejará. Não pude conter-me, já em prantos sussurrei: eu te amo.
Esperava sinceramente que me consolasse, a sua pena ao menos. Mas não. Não eras digna de sua compaixão. Você com frieza virou-se e disse à um som inaudível: sinto muito. E adentrou sua casa, fechando a porta e acabando com minhas esperanças.
Os dias seguintes se passaram lentamente, dia após dia. Com o tempo a sua imagem foi esvaindo-se da minha memória.
Após certo tempo, reergui-me e voltei a ser feliz como eu era, com o que eu tinha. Afinal se somos verdadeiramente felizes por que nossa felicidade à de depender de alguém? Eu era feliz agora.
Passado-se dois meses, quem me aparece à porta?! Ele, lindo como nunca.
Não podia demonstrar sofrimento, embora ele estivesse despertando no fundo da minha alma.
Esquecendo-me de minhas emoções, abri a porta e educadamente disse: - Pois não? – esboçando um sorriso.
Lágrimas começaram a cair de seus olhos, disse-me em prantos o quanto me amava, e o quão foi difícil perceber isto.
Seus joelhos se dobraram diante de mim, suplicou-me para voltar.
Meu coração agora já estava entrando em estado de choque. A cada palavra me contorcia de dor. Não poderia me arriscar à sofrer novamente, não poderia e não queria.
O olhei, lamentando-se ao chão, e disse-lhe com a voz embassada, provavelmente por que as lágrimas já estavam à caminho: - Sinto muito.
Virei-me e entrei em casa. Encerrando nossa história.
Não consegui dormir nesta noite, as lembranças dele perturbavam minha mente, em estado de recuperação. O sono parecia mais distante à cada segundo. Peguei uma folha de caderno e pus-me a escrever.
Esboços saiam mal feitos, devido a minha caligrafia tremula, as lágrimas molhavam o papel, deixando-o úmido.
Entre linhas, as palavras diziam:
‘Oi. Desculpe-me pelo recente ocorrido, espero que fiques bem. Quanto a mim? Serei apenas uma lembrança, claro, se eu tiver a honra de estar em sua memória.
Ontem ao lhe ver aos meus pés, relembrei do acontecido à um mês atrás, quando vi aquela menina saindo de sua casa, estava disposta à relevar os fatos, era incontroladamente apaixonada por você. Não vou negar meu amor, foi o mais sublime dos sentimentos que já vivi, mas como dizem: só à uma ponte que separa o amor da tristeza. Não se preocupe, não terá que ler os poemas que eu insistia em lhe mandar, nem comer os bombons que recebias e em instantes jogava no lixo, não lhe ligarei mais, sei o quanto és ocupado, e quanto a sua caixa de e-mail? Ela não lotará mais, por que em minhas mensagens você não estará como remetente.
Talvez você estivesse certo todo o tempo, como tu mesmo dizia: ‘ O romantismo não é mais desta época’. Vejo então que minhas palavras, muitas vezes carregadas de amor e carinho, perderam sentido.
Desejo-lhe então que ames como nunca amou. Espero que agora tenhas tempo...
Quanto à mim? Se o decepcionei, sinto muito...’
Após o envio desta melancólica carta passaram-se um ano, até que minha amiga dá-me a notícia de que ‘ele’ havia falecido, minha alma transformou-se em um recanto fúnebre. Lágrimas irrigavam sentimentos esquecidos.
Chorava por que o perdi definitivamente. E não podia revogar esta situação.
Vesti-me à caráter e fui ao seu encontro, ou melhor, ao encontro de seu corpo. No caminho preparava-me, pois a imagem dele imóvel em um esquife não seria agradável.
Ao entrar, desesperei-me, lágrimas escorriam incontidamente de meus olhos. Nunca havia o visto tão inanimado, tão pálido, sem um sorriso em seu rosto.
Ao me aproximar notei um detalhe peculiar, envolto ao seu pulso havia uma pulseira, a qual lhe dei após nosso primeiro encontro. No mesmo havia peças brancas e pretas, ao entregar este colar à ele, pedi que enumerasse à cada peça preta uma de suas tristezas, ou sonhos não realizados, e às brancas, um motivo de felicidade que tivera. No entanto, quando sua tristeza se convertesse em felicidade, ele substituiria a peça preta pela branca.
Ele fez isso sagradamente, a maioria das peças da pulseira eram brancas, exceto por uma.
Questionamentos se formaram na minha cabeça: qual o sonho que ele não pode realizar? Qual tristeza carregou consigo até seus últimos dias? Não havia resposta, ele não poderia dar-me.
Ternamente segurei em seu braço, meus dedos percorriam cada peça de sua pulseira, notei que havia uma tatuagem em seu pulso, mas a pulseira a cobria, ao afastá-la pude ver escritos em letras cursivas no qual dizia: sinto muito...
Não me agüentei em minhas pernas, meu mundo havia desabado, e ele sucumbiria com minha vida também. O que restava a mim? O medo de machucar-me em uma relação era maior do que o clamar de meu coração. Minha angustia ofuscava minha racionalidade, não pude perceber que ao me afastar dele minha feridas emocionais desapareciam, mas que meu coração desfalecia.
Levantei, me recompus, despedi-me de meu eterno amado e sai. Sai sem destino... Procurando um motivo para viver, motivo o qual eu perderá, pra sempre...
Pensei por várias vezes em suicidar-me... Abandonei minha vida à mercês do destino, destino este, frio e implacável. De qualquer modo, à minha morte será rápida, sem resistência, uma vez que eu já a perdi para sempre. Minhas últimas palavras? São as mesmas que serão gravadas em meu túmulo: ‘Sinto muito... ’




By Hagnes Dias Ribeiro

2 comentários:

  1. Genteeeeeee
    até me emocionei...
    q q eh isso heim D. Hagnes...
    apaixonada pra valer... hauhauhauhuahuaa
    Lindo Lindo... um pouco triste + perfeito!!!
    Parabéns!!!

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  2. Cara!
    Eu chorei!
    Se você queia tocar seus leitores... Você conseguiu.
    Parabéns!
    Sou sua fã.
    ;*

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