
'Só que você foi embora, cedo demais...'
Dia pacato, o sol já aponta no horizonte. E logo pela manhã recebo em meu celular uma mensagem, quem me dera fosse de minha operadora solicitando novos créditos, ou oferecendo alguma promoção.
Mas não, era muito pior, bem, ao menos fez-me sentir pior.
Nela, uma breve mensagem redigida de forma incorreta, devido talvez a rapidez com que foi digitada: ‘Minha vó ñ agüentou e morreu hj pela manhã’
A li e reli durante inúmeras vezes tentando concentrar-me na veracidade da notícia, era real... Mais uma prova havia sido imposta à ela. No termínio da aula retornei a ligação, a voz rouca do outro lado da linha confirmou toda a história, sem muitas palavras desliguei, o professor agora já me observará.
O dia decorreu lentamente sem algum entusiasmo, cheguei em casa após o trabalho, banhei-me e me vesti.
Não tive que esperar muito até que minha mãe chegasse, expliquei à ela tudo o que havia ocorrido, terminando a frase com um sussurro: ‘não volto pra casa hoje’. Estava preparada pra enfrentar resistência da parte dela, mas seu aceno positivo com a cabeça me fez ver que ela entendeu.
Fui para o local marcado, antes, assegurei-me de que não dormiria naquela noite. Perdida entre as ruas deparo-me com uma multidão, realmente deve ser ali.
Receosa entro naquela casa onde à poucos conhecia. Chego à uma saleta tumultuada, lá estava ela, mais cálida do que o costume, ao lado daquele esquife marrom brilhante. Tentei forçar um sorriso, porém meus lábios contradiziam meus olhos que se contorciam de tristeza, não pela desfalecida mulher, até por que não à conhecia (talvez este, o fato de minha força), mas por vê-la assim, seus olhos sem o brilho no qual eu estava acostumada, mal se equilibrando ela se levantou e caminhou em minha direção, sem palavras ouvíveis à abracei, fomos pra fora daquele recinto e nos sentamos. Não havia nada para dizer. ‘Foi melhor assim’? Claro, isto poderia ser reconfortante, mas não cessaria a angústia que percorria seus olhos. ‘Sinto muito’? É, realmente eu sentia, mas minhas palavras falaram por si só e assuntos descontraídos surgiram. Talvez consegui entretê-la por alguns segundos, minutos se não for muita ousadia de minha parte, mas logo aqueles olhares agonizantes voltavam-se para ela. O clima era de tristeza, e nem minhas melhores piadas seriam capazes de muda-lo.
Todos exaustos recorriam às camas para descanso, mas apesar de toda minha insistência ela negou, ingeriu alto teor de cafeína para que seus olhos não se fechassem em um vacilo, fiz o mesmo, duplicando a dose que já percorria meu corpo.
As madrugadas nunca foram tão geladas como aquela, mas já estávamos agasalhadas à este momento.
A sua insistência para que eu dormisse foi em vão, estava ignorante demais à ponto de não ouvi-la em nada. E isso a irritava profundamente, nada que eu já não tivesse visto e suportado.
A noite se seguiu, sem mais surpresas, a manhã foi aparecendo com certa dificuldade, todos sabiam que a hora estava chegando, então o choro aumentou proporcionalmente.
O padre chegou e com singelas palavras foi confortando o coração de cada um presente. Após sua partida, o conforto foi mútuo.
Poucos minutos depois, um carro devidamente próprio para a ocasião estaciona em meio à multidão, desce um homem sério e adentra a casa, dirigindo-se também à pequena sala, acaba de chegar o convidado menos desejado.
Despedidas se desenrolam, quando os procedimentos para a remoção do esquife começam, em instantes ele é carregado para a traseira do comprido carro, que lentamente começa a se movimentar, seguido por uma fila imensa de automóveis.
O carro em que eu estava foi o primeiro a chegar, em seguida os outros viraram a esquina e estacionavam aleatoriamente.
Todos seguiam agora uma maca que percorria as ruelas, entre os túmulos; peguei tudo o que ela continha em suas mãos e a deixei ir à frente junto com seus familiares.
As rodas param no centro daquele lugar fúnebre, e em seguida todos ficam imóveis, é a hora de despedir-se, todos vão até o caixão e prestam sua homenagem pela última vez à aquela mulher pálida.
Em passos desconcertantes ela caminha até lá, lágrimas percorrem sua face descontroladamente, sua pele toma um tom avermelhado em poucos segundos, ao observá-la de longe relembrei-me de quantas percas irrecuperáveis ela tivera e o quão bravamente superou cada uma delas, lembrei-me também do quanto me ajudou em meus momentos de fraqueza, ensinando-me a bravura que expandia de seu coração.
Quando voltei a mim, ela já tinha se afastado de toda aquela multidão, talvez para pensar em tudo, ou para conter suas lágrimas que teimavam em cair, dentre os olhares, encontrei os da sua mãe que estava com os olhos fixamente nela, pensei em deixá-la sozinha, respeitar esse momento de fuga, mas essa não era a hora exata pra ser educada, me aproximei, à abracei e em um sussurro disse-lhe: ‘Você é forte, lembra?’ Talvez não fosse uma boa coisa a se dizer, mas não haviam coisas agradáveis à serem ditas.
O barulho estridente das rodas da pequena maca começaram, nos informando que havia chegado a hora. Todos caminharam novamente, deixei-me ficar para trás e meus pensamentos voltaram-se no por que disto: se é melhor por que sofremos tanto? Por que as pessoas boas tem que passar por isto? Quero dizer, já não é sofrimento o bastante manterem-se puras em um mundo como este? As respostas fugiam-me dos pensamentos.
E quando voltei a mim tudo estava lá, real como sempre foi, neste momento o esquife já estava sendo colocado na cova, fiquei à alguns metros dela. Graças aos céus uma pessoa estava ao seu lado a apoiando.
As pessoas despediam-se e iam embora, ela foi uma das últimas. Aproveitei e liguei para minha mãe, avisando-lhe que já podia ir embora e precisava de alguém para me buscar. Tinha certeza que ela me levaria em casa, mas ainda me restava um pouco de senso.
Ela se dirigiu ao portão de saída, à alcancei e disse-lhe que já estava indo, prontamente ela disse-me que me levaria, como eu já havia imaginado, tentei explicar que preferia que ela descansasse, em vão! Ela era tão cabeça dura quanto eu.
Descobri que eu era ignorante também, mas aquela irritação era passageira e compreensível, caminhei à frente com passos largos para evitar uma possível discussão.
Despedi-me de sua mãe com um abraço, quando ouço a voz rouca dela atrás de mim, pensei na probabilidade de ignorá-la, mas ainda me restava um pouco de educação, caminhei até ela, e a abracei novamente, ouvi um singelo ‘obrigada’, várias cenas retornaram à minha cabeça: - Oh se eu pudesse agradece-la por tudo que me fez, pela amiga-irmã que sempre foi, pelos momentos em que esteve comigo acima de tudo, mas nenhum agradecimento do mundo o expressaria, talvez minha amizade leal e a plena certeza que estarei ao seu lado em um momento chamado sempre supriria ao menos um pouco tudo isto.
By Hagnes Dias Ribeiro
Preciso nem falar o tanto q eu chorei qndo li esse poema néh? e ñ foi só a primeira vez q eu li ñ...chorei praticamente todas as vezes... você é uma pessoa muito muito muito muito infinitamente importante pra mim!! AmO tantão!!! Obrigada por tudo!!!
ResponderExcluiradoreii esse.
ResponderExcluirCara, seu talento é inigualável, li todas suas poesias e essa foi a que mais gostei. Meus parabéns.
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