quinta-feira, 9 de setembro de 2010


Sempre gostei de coisas novas, mesmo que elas não tenham o valor sentimental das coisas velhas.

Coisas velhas tem um pouco de nós mesmos, nosso cheiro. As novas não, mais logo se misturam com o cheiro habitual e perdem o cheiro gostoso de novo, e deixam de ser.

É verdade que o novo quase sempre vem acompanhado pela perda, e é por isso que muitas pessoas evitam ao máximo experimentar coisas novas, por terem medo de pisar no desconhecido.

Enfrentar situações novas é extremamente intrigante para nós, causa medo e insegurança. É como um pássaro que não quer bater assas com medo de voar.

Não querer mudar é um mal do ser humano que está adaptado a sua vida normal e pacata.

Mudanças assustam o homem, mas em determinado momento da sua vida, ela é inevitável.

É mesmo que saiam para o mundo, ainda que despreparados, preparam-se no leito da vida.

E quando voam não querem mais voltar, por que estão aptos a alçar novos vôos.

Seria além de tudo uma mudança regressiva, e ninguém quer dar passos para trás.

Entende?

Apesar de gostar muito do velho, é o novo que me chama a atenção, que me faz sonhar e almejar vôos mais altos.


Quando esse ano começou eu prometi dar mais valor às pessoas, e de certa forma estou me saindo bem, as pessoas é que não colaboram.

Amigos são uma coisa meio estranha, quando estão perto os queremos longe, e vice-versa.

Sempre tento ser agradável, carismática e amorosa, principalmente com aqueles a quem chamo carinhosamente de amigos, mas nem sempre consigo. Isso por que as pessoas mudam muito rápido.

Existem aqueles amigos – pra - sempre que somem depois de um ano, os amigos - neutros, que não fazem diferença na sua vida, conhecidos popularmente por colegas.

E existem ainda os amigos – de - sangue, que são aqueles que tem a mesma idéia, concordam em tudo e dão-se totalmente bem.

Esse último merece respeito e admiração, são amigos que deveriam estar lá por ti em qualquer momento. Mas não estão, estão?

Sempre tive muitos problemas em relacionamentos, por que queria todas as coisas pra mim, sou possessiva. E talvez por medo de perdê-las, mais sempre as substituía antes que saíssem da minha vida.

Acho que não sei amar, sei gostar. Isso é um fato.

Gosto demais.

Cuido demais.

Me preocupo demais.

Tudo em excesso, mais não creio que há medida para isso, devo apenas lembrar-me de um recado:

“pessoas não tem títulos de propriedade”.

Não pertencem a ninguém, muito menos a mim.

Se me pertencessem viriam embaladas para presente com faixas de exclusividade de Hagnes Dias.


O “tarde demais” sempre me incomodou, pensar no que poderia ter sido e não foi é um dos piores erros do ser humano.

Deixamos escapar oportunidades muitas vezes por preguiça ou desinteresse.

Ver a chance passar a sua porta, e estar na janela esperando que ela entre é muita pretensão. Oportunidades não são perdidas, se você não as aproveita, aproveitaram por você.

As vezes acho que penso demais, e exatamente por isso não tomo atitudes no momento certo, deixo passar.

E o que passa não tem o costume de voltar.

Não faço idéia de quantas vezes deixei uma coisa importante passar por mim sem nem ao menos correr atrás.

O problema é que acho que nunca vou me arrepender de algo, então vem a vida e me espeta, mostrando cada erro e que não posso concertá-lo. Não agora.

O que me resta então? As oportunidades se foram, e correr agora não adianta mais.

Talvez essas chances que passaram pelas pontas dos meus dedos, e que deixei escapar, podem estar nos meus pés, beneficiando vermes na minha sola.


Quero descobrir o que se diz respeito amar.

Posso vê-lo em meus sonhos, lindo, como um príncipe. Mas real. Talvez, não tão real.

Você estás em vida, mais não está na minha.

Nem sabes quem sou, ou meu nome.

Queria deitar em campos verdejantes e olhar para o céu brilhante, imaginar um oceano onde os peixes dançam a valsa da procriação.

Dar a cada flor um nome e uma cor, azul.

Assim como o vestido que comprei para agradar-lhes.

Porém, por fim, agradei outros olhos, já que os teus nunca olharam em minha direção.

Dei a cada criatura o teu nome, e imaginei imensuráveis formas de lhe dizer o quanto lhe desejo.

Desejo seu corpo, seus olhos penetrantes, suas mãos tocando minha pele macia e o sussurrar de palavras desconexas.

Quero-te para sempre, mas não acredito que isto seja, algum dia, amar.

Nos últimos dias não tenho feito questão de engolir palavras para parecer menos carrasca. Estou afim de conhecer pessoas interessantes com papos legais. Perguntas idiotas não me encantam mais. Quero pessoas novas, assuntos diferentes. Quero saber como essas pessoas estão, o que tem feito e o que gostam de fazer.

Mas não sou tão cara de pau, não consigo chegar e perguntar-lhes coisas intimas, como se eu fosse sua amiga há anos. Também não saio dizendo minhas confidências. Chegaria eu dizendo que gosto de abraços longos e calmos? Ou que branco me agrada? Quem gostaria de saber?

A verdade é que não sou uma pessoa interessante, não danço, não canto, não interpreto, e não tenho beleza que lhe encante. Talvez por falta de interesse meu e/ou dos outros existe esse vazio em mim.

Não tenho coragem/vontade de me abrir com os outros. Eles não entenderiam. Talvez sim, mas seria uma longa história. E ninguém gosta de longas histórias.

Não me importo tanto para o que eles pensam, ouvi-los faria com que eu mudasse meus conceitos, ou não. Eu apenas tiraria minhas próprias conclusões, pois acredito em metade do que vejo, mas em nada do que escuto.


- A idéia de perder me apavora, mas isso é uma coisa que se aprende com o tempo. É natural. Para alguém ganhar, outros precisaram perder. Em uma corrida sempre haverá pessoas na sua frente, e atrás de você.

Quase nunca chego na frente. Gostaria de lançar-me para o fim da linha, para ver como termina, quem perde e quem leva o troféu. O problema é que o ‘foi por que era pra ser’ sempre me acalmou, sempre me convenceu. Mas não era pra ser, foi por que eu deixei acontecer.

Eu prostrei-me no caminho e desisti de caminhar, de competir.

E claro, para esses casos a derrota é a única certeza.


Hoje, desde que acordei, sempre que olhei no relógio, os minutos marcavam 46. 10:46, 13:46, 15:46, 18:46, 22:46, 00:46. Resolvi então olhar alguns livros que tenho na estante, folheando-os até a página 46. Entre diversas páginas, uma que mais me chamou atenção foi esta:

- É uma mulher que é preciso amar menos do que ela nos ama a nós. Ou, pelo menos, fingi-lo. Você partiu vencido.

- Não parto vencido – disse Édouard com voz subitamente calma, porque até então, contando seu fim de semana malogrado, não fizera mais do que balbuciar algumas palavras entrecortadas e desesperadas - , não parto vencido, pois não parto batendo a porta. Detesto as relações de força.

- Mas isso acaba sempre assim – disse sentenciosamente Nicolas -, sobretudo com Béatrice. Você se comportou como um boboca.

Édouard suspirou. Estava em um pequeno apartamento, paupérrimo mas encantador, de celibatário conquistador e sem trabalho. Lamentara-se, falava de seus sentimentos – coisa que jamais lhe acontecia, coisa que não lhe acontecia havia muitos anos, havia cinco anos, exatamente, visto que cinco anos para cá, depois de Béatrice, não amara mais ninguém.

- Talvez eu seja um boboca – disse -, mole e covarde, mas não me importo. Existe uma coisa que você entende, Nicolas, a meu respeito: do momento que for Béatrice a fazê-lo, sou tão completamente indiferente a ser destruído que isso me torna indestrutível. Sou indiferente a que mil pessoas me desprezem desde que Béatrice me beije.

- Mas entre essas mil pessoas existem pessoas mais inteligentes, mais válidas, mais sensíveis do que Béatrice, não?

Nicolas começava a enervar-se.

- Que fiquem com suas qualidades – disse Édouard. – Não quero saber delas para nada. Amo essa mulher que é bela e talvez ruim, como você diz, mas só junto dela sinto que estou vivo.

Nicolas levantou os braços aos céus e riu.

- Pois bem, meu caro, então sofra! Ame e sofra, que quer que lhe diga? ... Talvez seja muito bom para a sua peça.

- A propósito de minha peça – começou Édouard estouvadamente -, tive uma idéia!...

Estacou de repente com uma impressão de sacrilégio. Que importava a sua peça, uma vez que Béatrice o deixara!

- O que não entendi – recomeçou apressadamente –foi o fim da carta.

Tirou-a da carteira, releu o pós-escrito e ergueu para Nicolas um olhar inseguro.

- Ela me diz que é estúpida demais para mim, é curioso, e que talvez me esteja impedindo de escrever.

Nicolas sorriu.

- É a primeira vez que a vejo ter um reflexo de honestidade, ou melhor, de humildade.

- Você acha que ela realmente pensa assim? – disse Édouard. – Acredita que verdadeiramente ela tem medo de estragar minha vida?

[ A cama desfeita – Françoise Sagan – Pág. 46 ]


Não sei o que isso pode acrescentar-me, mas enfim, o li de bom gosto, se for algum sinal, por parte não foi ignorado.


- Sabe, acho melhor darmos um tempo.

- Está indo embora? Nossa, eu tinha certeza que isso ia acontecer, as pessoas saem da nossa vida mais rápido do que entram. Sinceramente, eu esperava essa despedida de todos, menos de você.

O que aconteceu com o ‘pra sempre’?

Quantas vezes você assegurava-me que estaria ao meu lado não importa o que acontecesse, e hoje estás indo embora?

Venha cá, explique-se.

Quando olho pra ti sinto raiva, tudo o que eu consigo enxergar são seus olhos de vidro e um coração de carne fria.

Não há sentimentos.

Eu gostaria de virar as costas e ir, pois aquelas mãos que se despediam com um até logo, hoje dizem até nunca.

As palavras carinhosas que trocávamos, hoje não passam de desaforos, insultos.

Quanto desgosto!

Onde você escondeu a certeza que me davas a cada nascer do sol?

Minha mão não estará pronta pra te socorrer. É um adeus que queres dar, assuma.

Você não precisa de um tempo, nós não precisamos. Sabemos melhor que ninguém que esse até logo é definitivamente um adeus.

- Ótimo.


O fim do ano vem chegando, não tão docemente como o vôo de um pássaro, mais como uma ventania que fará tudo que eu construí desmoronar, o meu castelo se tornará como o resto da areia da praia.

Acho que isso é medo, medo de perder o que eu conheço, medo de enfrentar o desconhecido. De tirar as rodinhas da bicicleta e me equilibrar sozinha.

Talvez eu tenha medo de ver que o mundo é muito maior do que meu próprio umbigo.

Medo de assumir quão insegura e egoísta sou.

Os pássaros voam, arriscam novos horizontes, e fazem isso em equipe. Não precisam de mapas, ou roteiros. Seguem seus instintos e confiam uns nos outros.

Sabe, acho que é isso que eu preciso fazer.

Dê-me um tempo.

Deixe minhas asas crescerem, e eu prometo que nunca mais vou parar de voar.

Pare de mexer no papel, eu estou tentando ler.

Sua caligrafia é horrível, ainda mais sem meus óculos. Não me lembro onde, só sei que os perdi em algum lugar. Acho que deve estar na minha estante, ou no meu quarto, não importa realmente. O que importa é que eu os tenho, e tenho também uma casa, e uma família, e vários amigos ao meu lado.

Os papeis voaram, e eu ainda estava tentando ler.

Eu já mencionei que perdi meus óculos?


Ela caminha olhando pro chão

Ele caminha olhando pro céu

Ela chora incansavelmente

Ele sorri disfarçadamente

Ela sofre

Ele não se importa

Na cabeça dela, ele

Na cabeça dele, nada.

E só.


Uma menina, um menino e um velho cego, todos os três andando em meio a campos de trigo, sob um céu azul cintilante, onde os raios de sol penetram cada poro do corpo.

O velho para e abre os braços sentindo o sopro do vento e o calor do sol.

As crianças estão mais atrás, quando a menina sussurra no ouvido do menino:

“acho que deve ser ruim pra ele, sentir o vento no rosto

e saber que está diante da imensidão do céu

e não ter idéia nem de como a cor azul é.”



Dentro da minha cabeça existem milhares de vozes que me falam coisas constantemente.

Umas dizem como eu devo agir quando estou em um paradoxo comigo mesma, como devo me vestir se nenhuma peça me agrada no meu guarda-roupas, o que devo falar quando as palavras estão falhas e propensas a não sair, e como falar. Falar com calma, ou firmeza?

De quem devo gostar, se minhas intuições não estão funcionando como deveriam e sempre escolho a pessoa errada.

Elas me falam milhares de coisas.

Se intrometem.

Me perturbam.

Talvez por serem tantas, e por nunca se calarem.

Elas riem, gargalhavam, choram, gritam, ficam em silêncio. Dizem sim, dizem não, talvez.

São indecisas, talvez tanto quanto a dona da cabeça. Talvez sejam pessoas diferentes. Conselhos de pessoas que revivo agora todos de uma vez só. Não dá pra identificar de quem é cada um. Mas estão lá. E esta explodindo.

Vozes idiotas! Gostaria que me deixassem em paz, para que meus pensamentos ecoassem dentro da minha cabeça.

Queria experimentar o vácuo por alguns minutos. Mais não dá, elas são incansáveis.

Falam de todos.

Elas mentem. Mentem sobre tudo.

Elas falam de você. Mais são coisas sem importância.

Eu não consigo dormir, nem ao menos fechar os olhos. Por favor, calem-se.

E se tu me perguntares sobre o que elas falam, eu digo que te deixo escolher.

06:06


Dizem que quando as horas e os minutos estão iguais alguém está pensando em você ou você pode fazer um pedido. Por via das dúvidas eu sempre fazia os dois. E se houvesse alguém que realmente estava pesando em mim, talvez... bem, isso nunca me importou realmente.

Parei de ser supersticiosa quando vi que nada disso era concreto, palpável. Passar debaixo de escadas, quebrar espelhos, ou ver um gato preto não interfere na minha sorte.

A única superstição que eu acredito ultimamente é que nós fazemos o nosso destino. Talvez certas coisas sejam mesmo inevitáveis, mas os caminhos que tomamos predestinam o resultado. As coisas só acontecem por conseqüência de outras, decisões passadas interferem em futuros resultados.

Quando a vida me apresenta uma pessoa, decido se ela permanecerá ou não. É uma escolha pessoal. O destino só me deu as cartas, decido se vou jogar ou não com elas.

Não preciso de pedidos ao relógio ou simpatias, posso guardar esses anseios e tentar realizá-los intimamente. As cartas estão na mesa, e a próxima jogada é minha.

Se tudo der certo, vai ser por mérito meu, e não dos minutos que estão iguais as horas, por que eles não vão fazer que tudo se ajeite quando os ponteiros marcarem 06:07.

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