
Hoje, desde que acordei, sempre que olhei no relógio, os minutos marcavam 46. 10:46, 13:46, 15:46, 18:46, 22:46, 00:46. Resolvi então olhar alguns livros que tenho na estante, folheando-os até a página 46. Entre diversas páginas, uma que mais me chamou atenção foi esta:
- É uma mulher que é preciso amar menos do que ela nos ama a nós. Ou, pelo menos, fingi-lo. Você partiu vencido.
- Não parto vencido – disse Édouard com voz subitamente calma, porque até então, contando seu fim de semana malogrado, não fizera mais do que balbuciar algumas palavras entrecortadas e desesperadas - , não parto vencido, pois não parto batendo a porta. Detesto as relações de força.
- Mas isso acaba sempre assim – disse sentenciosamente Nicolas -, sobretudo com Béatrice. Você se comportou como um boboca.
Édouard suspirou. Estava em um pequeno apartamento, paupérrimo mas encantador, de celibatário conquistador e sem trabalho. Lamentara-se, falava de seus sentimentos – coisa que jamais lhe acontecia, coisa que não lhe acontecia havia muitos anos, havia cinco anos, exatamente, visto que cinco anos para cá, depois de Béatrice, não amara mais ninguém.
- Talvez eu seja um boboca – disse -, mole e covarde, mas não me importo. Existe uma coisa que você entende, Nicolas, a meu respeito: do momento que for Béatrice a fazê-lo, sou tão completamente indiferente a ser destruído que isso me torna indestrutível. Sou indiferente a que mil pessoas me desprezem desde que Béatrice me beije.
- Mas entre essas mil pessoas existem pessoas mais inteligentes, mais válidas, mais sensíveis do que Béatrice, não?
Nicolas começava a enervar-se.
- Que fiquem com suas qualidades – disse Édouard. – Não quero saber delas para nada. Amo essa mulher que é bela e talvez ruim, como você diz, mas só junto dela sinto que estou vivo.
Nicolas levantou os braços aos céus e riu.
- Pois bem, meu caro, então sofra! Ame e sofra, que quer que lhe diga? ... Talvez seja muito bom para a sua peça.
- A propósito de minha peça – começou Édouard estouvadamente -, tive uma idéia!...
Estacou de repente com uma impressão de sacrilégio. Que importava a sua peça, uma vez que Béatrice o deixara!
- O que não entendi – recomeçou apressadamente –foi o fim da carta.
Tirou-a da carteira, releu o pós-escrito e ergueu para Nicolas um olhar inseguro.
- Ela me diz que é estúpida demais para mim, é curioso, e que talvez me esteja impedindo de escrever.
Nicolas sorriu.
- É a primeira vez que a vejo ter um reflexo de honestidade, ou melhor, de humildade.
- Você acha que ela realmente pensa assim? – disse Édouard. – Acredita que verdadeiramente ela tem medo de estragar minha vida?
[ A cama desfeita – Françoise Sagan – Pág. 46 ]
Não sei o que isso pode acrescentar-me, mas enfim, o li de bom gosto, se for algum sinal, por parte não foi ignorado.